Esqueletos humano e de ave Pierre Belon 1555
Saturday, December 18, 2010
Friday, December 17, 2010
Mundo grande
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
... Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.
Carlos Drummond de Andrade.
Thursday, December 16, 2010
Ensaio para pássaro
"Maria Augusta Bárbara" em:
ENSAIO PARA PÁSSARO
Fotografia: Ratz
Esse ensaio foi apresentado pela primeira vez no Painel Performático da escola de Dança da UFBA no dia 24 de novembro de 2010.
Wednesday, November 24, 2010
Ensiao para pássaro
Nesta quarta-feira 24 de novembro estarei apresentando a instalação:
"Ensaio para pássaro" - Sobre "Maria Augusta Bárbara"
Estão todos convidados!!!
"Ensaio para pássaro" - Sobre "Maria Augusta Bárbara"
Estão todos convidados!!!
Monday, November 15, 2010
Friday, October 29, 2010
Thursday, October 28, 2010
Carta à Maria Augusta
Salvador, 18 de Outubro de 2010.
Carta à Maria Augusta,
No dia 25 de outubro tive a oportunidade de conhecê-la melhor.
Em Mab sempre pude observar um brilho nos olhos característico, próprio. Mas, em estados alterados de consciência, as regras da percepção comum são rompidas, já diziam os surrealistas, e acredito que por isso que Maria Augusta despertou em mim um verdadeiro estado de vontade, e me levou até a fronteira, quase insipiente, entre onde começa a vida e a morte.
Maria Augusta nos convida a passar por um sentimento de permanência no tempo e no espaço, seu corpo é constantemente suportado por algo invisível. “Situa-se entre a espontaneidade e o controle absoluto, entre um corpo natural ou espontâneo e um corpo-marionete.” (PAVIS, 2001, p. 15).
Um “corpo dócil” preparado para ser não somente obediente, como também realizar tudo o que o sistema exigir?
A presença sutil do ballet clássico na obra dinamiza as energias potenciais e leva a intérprete e o espectador sempre além. As forças contrárias, os impulsos, as intenções musculares, ajudam a articular a presença cênica de forma orgânica. A repetição e o enclausuramento dos micromovimentos, a intenção, o élan.. a ação física propriamente dita.. o impulso vital..
Depois de alguns minutos o resultado do trabalho físico aparece refletido nas ações realizadas em cena, o suor, o tônus.. algo parece sempre estar sendo arremessado de dentro pra fora, e vai criando os nós (interseções) que apresentam momentos/movimentos de tensão, e na rede tecida pela justaposição de formas é possível vislumbrar o princípio ideogramático que relaciona essas idéias/imagens.
Essa tensão que surge em um corpo amarrado lá no início, percorre toda a obra, como o trilho de um trem, um constante estado de turbulência onde esse corpo central é força, segmentação, enraizamento, energia; capaz de materializar diferentes qualidades de vibração na busca de uma expressividade pessoal.
A imagem que me submeteu é que Maria Augusta fora lançada em um buraco negro, uma região do espaço-tempo da qual não é possível escapar para o intuito.
Na obra não há nada para se contemplar, mas para se experienciar junto.
Inaê Moreira.
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